Vitória Régia

Nasci em berço simples, filha de uma mãe aguerrida, forte e profundamente digna, que criou três filhos sem qualquer ajuda externa, sustentada apenas pela fé em Deus, pelo trabalho honesto e pela certeza de que a educação seria o maior legado que poderia nos deixar. Mesmo diante das dificuldades, ela jamais permitiu que nos faltasse incentivo aos estudos. Foi dela que herdei a perseverança, a disciplina, a capacidade de resistir diante das adversidades e a compreensão de que dignidade não depende de riqueza, mas de caráter. Minha trajetória começou cedo. Aos onze anos de idade, fui aprovada em um dos concursos mais difíceis do país e passei a integrar a primeira turma de meninas do Colégio Militar de Fortaleza. Eu ainda era apenas uma menina. Uma menina simples, cheia de sonhos maiores do que o mundo conhecia até então. Ali vivi alguns dos anos mais felizes da minha vida. Mais do que formação acadêmica, o Colégio Militar me ensinou valores que carrego até hoje: disciplina, hierarquia, honra, lealdade, espírito de corpo, responsabilidade, amor à pátria e resiliência. Também foi ali que nasceram amizades que atravessaram décadas e permanecem presentes em minha vida até hoje. Talvez, sem perceber, foi naquele ambiente que comecei a entender que minha caminhada exigiria coragem para ocupar espaços onde poucas mulheres haviam estado antes. Anos depois, aos dezoito anos, fui aprovada no concurso da EFOMM - CIABA, passando a integrar a primeira turma de mulheres da Marinha Mercante Brasileira. Naquele momento, iniciava-se não apenas uma carreira, mas uma travessia. Uma travessia marcada por desafios técnicos, humanos, emocionais e espirituais. Meu primeiro embarque foi no navio petroleiro “Lambari”. Curto, mas marcante. Pela primeira vez compreendi, na prática, a grandeza da vida no mar e o peso da responsabilidade que aquela profissão exigiria de mim. Ainda hoje consigo me lembrar da sensação de olhar o oceano e perceber que minha vida jamais seria a mesma. O mar ensina rápido. Ele ensina humildade. Ensina vigilância. Ensina disciplina. E ensina, sobretudo, que ninguém domina verdadeiramente a força da natureza. Ainda muito jovem, carreguei responsabilidades que muitas pessoas talvez jamais consigam imaginar. Em alto-mar, pequenas decisões podem ter consequências imensas. O oceano amadurece rapidamente aqueles que escolhem viver dele e ele nunca perguntou se eu era mulher. Apenas exigiu que eu fosse capaz. Meu primeiro estágio foi realizado no NT “Diva”, sob o comando do Comandante Neto Saraiva; um homem sensato, justo e humano, que compreendia a importância de oferecer às jovens oficiais as condições necessárias para que permanecessem em uma carreira reconhecidamente árdua e desafiadora. Sua postura firme, equilibrada e respeitosa deixou marcas profundas em minha formação profissional e humana. O segundo estágio, também chamado de praticagem, foi no FC “Flamengo”, um navio full container que fazia a linha da América, ou seja, operava em cinco Estados norte americano. Foi ali que comecei a compreender, de maneira mais concreta, o que significava ser mulher em um ambiente historicamente masculino. Ainda assim, eu continuei. Naquele período, o pioneirismo feminino na navegação brasileira ainda dava seus primeiros passos e estava sendo escrito dia após dia. De maneira muito natural, a vida acabou me conduzindo a um marco histórico: tornei-me a primeira mulher a pilotar um navio no Brasil, já embarcada como oficial enquanto as minhas companheiras de turma ainda cumpriam seus períodos de praticagem. Nunca enxerguei isso como uma conquista individual, mas como parte de um caminho que começávamos juntas, a abrir para tantas outras mulheres que viriam depois de nós. Após a formação, embarquei como oficial da Marinha Mercante no FC “Leblon”, onde enfrentei alguns dos maiores desafios da minha trajetória profissional. Precisei trabalhar muitas vezes mais do que um homem para provar que também era capaz de ocupar aquele espaço. Em determinada ocasião, ouvi de um comandante: “Já que você está tirando o lugar de um homem, você vai ter que se virar sozinha.” Aquela frase jamais saiu da minha memória. Não apenas pela dureza das palavras, mas porque ela representava o pensamento silencioso de muitos naquele lugar e naquela época. Mas eu não estava sozinha. Eu tinha Deus e tinha Nossa Senhora. Foram Eles que me sustentaram nos momentos mais difíceis. Ao longo da minha trajetória enfrentei preconceitos, discriminações, isolamentos, assédios morais e sexuais; realidades que muitas vezes não aparecem nos registros oficiais, mas que marcaram a minha vida e das mulheres pioneiras da navegação brasileira. Ser pioneira nunca foi glamour. Foi resistência. Foi entrar em ambientes onde constantemente precisávamos provar competência, equilíbrio emocional e capacidade técnica. Foi suportar o peso de representar, mesmo sem querer, todas as mulheres que viriam depois. Houve momentos de profunda solidão. Momentos em que o silêncio de um passadiço durante a madrugada parecia mais acolhedor do que certas presenças humanas. Momentos em que precisei reunir forças dentro de mim para continuar sem perder minha essência, minha dignidade e minha fé. Aprendi cedo que a vida no mar cobra um preço silencioso. Perdemos aniversários, despedidas, datas importantes, pessoas amadas e momentos que jamais voltam. Existe uma dor latente em observar a vida acontecendo em terra enquanto seguimos navegando longe de tudo e de todos. O marítimo aprende a conviver com a saudade como parte da própria rotina. E talvez uma das coisas das quais mais me orgulho seja o fato de nunca ter permitido que toda aquela dureza me transformasse em alguém amarga. Continuo acreditando nas pessoas, na dignidade humana, na honra, no serviço e no bem. E, não menos importante, nunca precisei perder a minha feminilidade para me tornar forte e conquistar um espaço que era considerado um dos últimos redutos masculinos. Mas também seria injusto falar apenas das dificuldades. Ao longo das minhas travessias encontrei seres humanos extraordinários. Companheiros de bordo que me ensinaram não apenas a arte de navegar, mas também a arte de viver. Em um navio graneleiro chamado “Lily”, servi sob o comando do Comandante Marinho, um homem experiente, íntegro e humano, com quem aprendi valiosas lições sobre liderança, respeito e equilíbrio. Com o tempo, compreendi que os grandes líderes não são aqueles que inspiram medo, mas aqueles que despertam confiança. Pilotei diversos tipos de embarcações: petroleiros, graneleiros, full containers e um navio offshore, dentre eles, além dos já mencionados, cito ainda o FC “Aliança Brasil”, FC “Aliança Europa” e o PSV “Far Sleipner”. Atravessei mares revoltos. Encarei piratas a bordo e enfrentei tempestades. Passei por longos períodos embarcada. Conheci diferentes culturas, portos e realidades humanas. Minha maior travessia durou vinte e seis dias. Vinte e seis dias vendo apenas céu e água. Saímos de Ventspills, na Letônia, rumo ao porto de Santos, no Brasil. Em determinados momentos, a sensação era a de que o mundo inteiro havia desaparecido e restavam apenas o navio, o oceano e nós. O mar tem disso, ele reduz o homem à sua verdadeira dimensão. Ele ensina algo que poucas experiências humanas conseguem ensinar: diante da imensidão do oceano, títulos, vaidades, egos e certezas humanas perdem completamente o tamanho. E talvez por isso o mar transforme tanto aqueles que verdadeiramente o vivem. E foi ali, cercada apenas pela imensidão azul e pelo silêncio, que compreendi definitivamente o significado da palavra permanência. Em alto-mar, longe da terra, do barulho e das distrações do mundo, aprendemos a ouvir o silêncio e aprendemos a ouvir a voz de Deus... foi no silêncio do oceano que muitas vezes encontrei força para continuar. Enfrentei mar 10 no Golfo da Biscaia. E nessa ocasião, especificamente, estava embarcada com minha mãe a bordo, como passageira. As ondas eram tão altas que chegavam a estourar no para-brisa do passadiço. E ela... achando tudo lindo e encantador, enquanto marinheiros experientes rezavam e passavam mal. O navio subia e despencava como se fosse pequeno demais para aquele oceano. E realmente era... Naquele embarque também tive a felicidade de estar sob o comando do querido Comandante Gondar, uma pessoa que marcou minha trajetória de forma positiva e se tornou um grande amigo. Foram longos cinco anos e posso dizer, com sinceridade, que o mar jamais me causou tanto desconforto quanto algumas experiências humanas vividas sob lideranças despreparadas, insensíveis e injustas. Ainda assim, eu permaneci. Eu sobrevivi. E segui adiante. Foram mais de mil e quinhentos dias de mar. Dias de longas travessias, tempestades, mares revoltos, responsabilidades, aprendizados, saudades e resiliência. Depois de tantos anos enfrentando mares, travessias e desafios silenciosos, a vida ainda me reservaria um reconhecimento profundamente simbólico. Ao longo dessa trajetória, tive também a honra de sugerir a criação da Medalha Mérito Marítimo, homenagem voltada ao reconhecimento daqueles que dedicaram parte significativa de suas vidas ao mar, navegando na Marinha Mercante. E, assim, tornei-me a primeira mulher a recebê-la, em reconhecimento aos meus mais de 1.500 dias de mar. Mais do que uma medalha, aquele momento representou o reconhecimento silencioso de uma trajetória construída com sacrifícios, resistência, fé e permanência. As mulheres que vieram depois talvez nunca saibam exatamente o que enfrentamos. E isso, para mim, já significa que valeu a pena. Decidi parar de embarcar e logo em seguida estava trabalhando em uma empresa de navegação em terra. Embora tivesse deixado os embarques da Marinha Mercante, o mar ainda continuava me chamando. Pouco tempo depois tive a oportunidade de migrar para uma corretora de navios e logo após isso, a convite do Diretor de Portos e Costas, Vice Almirante Torres (in memoriam), atuei com Inspetora Naval (Port State Control) no porto de Natal. Em 2008, após aprovação em novo concurso tornei-me Oficial da Marinha do Brasil, onde tive a oportunidade de servir em lugares extraordinários e ter experiências únicas. Embarquei no Veleiro Cisne Branco, e em outros navios da Força Naval. Realizei voos em aeronaves de asa rotativa e um mergulho no submarino Tamoio e participei de missões intensamente marcantes em lugares únicos e extremos, como a Antártica, a Ilha da Trindade e Martin Vaz e o Arquipélago de São Pedro e São Paulo. O frio da Antártica, o silêncio das madrugadas em alto-mar, as luzes distantes dos portos e a saudade da terra moldaram de forma marcante quem me tornei. Experiências que ampliaram minha visão do mundo e da própria condição humana diante da imensidão do oceano. Ao longo dessa derrota encontrei pessoas excepcionais que me ajudaram a permanecer quando desistir parecia mais simples. São tantas que talvez seja injusta ao tentar citar nomes. Minha maior referência, entretanto, sempre foi minha mãe. Uma mulher simples, forte e digna, que nos ensinou, pelo exemplo, que fé e honestidade podem sustentar uma vida inteira. Ao lado dela, outra presença fundamental em minha trajetória foi a do meu padrinho, o Capitão de Longo Curso Álvaro José de Almeida Júnior. Mais do que um mentor profissional, ele foi um verdadeiro farol em minha vida. Em muitos momentos em que me senti à deriva, foi nele que encontrei orientação, equilíbrio e direção. Seus conselhos, sua experiência e sua forma humana de enxergar o mar e a profissão ajudaram a moldar não apenas minha carreira, mas também a mulher que me tornei. Espiritualmente, sempre encontrei em Deus e em Nossa Senhora a força necessária para continuar minhas travessias. Ao longo da vida, acumulei travessias, missões e marcas que jamais esquecerei. Cruzei oceanos. Enfrentei tempestades, longas noites de vigília, frio, sol e chuva em conveses de navios efetuando manobras de atracação, desatracação e operações no porto e travessias em que havia apenas céu e água por dezenas de dias. Vivi missões militares, operações na Amazônia, naveguei até os lugares mais isolados do Atlântico Sul, naveguei no Mar Báltico, atravessei o Drake por inúmeras vezes e aprendi, no mar, que coragem muitas vezes é permanecer firme mesmo quando tudo ao redor balança. Mas posso dizer com convicção que nada se comparou à dificuldade de uma travessia silenciosa e solitária que mudou minha vida e alma para sempre. A missão mais difícil da minha vida não aconteceu em um navio. Não exigiu farda, brevê, patente ou medalha. A missão mais difícil da minha vida foi ver minha mãe partir aos poucos… O Alzheimer foi apagando lembranças, nomes, histórias… e, lentamente, fui me tornando a memória dela. Houve dias em que ela já não sabia quem eu era. Mas eu sabia exatamente quem ela era para mim. Dias em que já não sabia meu nome... mas segurava minha mão como quem reconhece o amor. Eu a alimentei, a abracei, a cuidei, a protegi e permaneci ao lado dela quando o mundo dela já começava a desaparecer. Foram dez anos assistindo, lentamente, ao desaparecimento da mulher que havia me ensinado a existir... E talvez tenha sido ali, entre remédios, noites sem dormir, silêncios dolorosos e pequenos gestos de amor que eu tenha entendido o verdadeiro significado da palavra missão. Porque existem batalhas que não aparecem nos jornais. Existem heroísmos que acontecem em quartos silenciosos. Existem despedidas que duram anos. O mar me ensinou sobre força. Mas foi cuidando da minha mãe que eu aprendi sobre amor. Sobre entrega. Sobre permanecer. Sobre continuar segurando a mão de alguém… mesmo quando ela já não consegue mais reconhecer a sua. Talvez tenha sido justamente depois dessa longa despedida que comecei, também, a buscar meu próprio recomeço. Cruzei oceanos sem medo. Atravessei tempestades. Enfrentei o gelo. Naveguei em alguns dos lugares mais isolados do planeta. Mas nada... absolutamente nada... me preparou para a lenta despedida da mulher que me ensinou a viver. Hoje sigo servindo em Brasília como Assessora de Relações Institucionais do Centro de Instrução e Adestramento de Brasília. Embora atualmente trabalhe no Planalto Central, longe do mar, viva em uma chácara, cercada por terra, pelo belo cerrado, por adoráveis animais e por um ritmo de vida mais simples e verdadeiro, jamais me afastei da essência da vida marítima. O mar continua presente em mim. Hoje minha atuação acontece de outra forma, pois aprendi que existem outras formas de navegar. Não atravesso mais oceanos no passadiço de navios, mas sigo atuando, de maneira institucional e estratégica, na construção de pontes, no fortalecimento de relacionamentos e no apoio a iniciativas voltadas ao desenvolvimento e fortalecimento das organizações militares e da comunidade marítima brasileira. Ao longo dos anos, compreendi que servir vai muito além de estar embarcada. Também é servir quando contribuímos, ainda que nos bastidores, para que homens e mulheres do mar encontrem estruturas mais fortes, oportunidades melhores e caminhos mais dignos para continuar cumprindo suas missões. Acredito que a vida marítima continuará evoluindo tecnicamente. Mas espero, sinceramente, que também evolua humanamente. Navios são feitos de aço. Mas a navegação sempre dependerá de seres humanos. Com o tempo, compreendi que o verdadeiro legado de um pioneiro não está apenas nos caminhos que percorreu, mas nos caminhos que deixou abertos para aqueles que vieram depois. Hoje compreendo que minha história não é apenas sobre mim. Ela representa muitas mulheres que abriram caminhos silenciosamente, suportando dores invisíveis, enfrentando medos profundos e permanecendo firmes mesmo quando tudo parecia contrário. Minha trajetória não foi fácil. Não foi leve. E muitas vezes não foi justa. Mas foi verdadeira. Ser pioneira nunca foi sobre reconhecimento. Foi sobre permanecer quando seria mais simples e mais fácil desistir. A menina de origem simples que um dia saiu do Ceará carregando sonhos maiores do que o mundo acabou atravessando oceanos, enfrentando tempestades, rompendo barreiras e descobrindo que coragem não é ausência de medo, é permanência. Essa menina jamais poderia imaginar os mares e oceanos que atravessaria. Mas Deus já sabia! Porque algumas pessoas nascem para ocupar espaços. Outras nascem para abrir caminhos. E eu fui chamada para os dois! E apesar de todas as tempestades, jamais perdi a capacidade de acreditar que mares difíceis também conduzem a novos horizontes. Com o tempo, compreendi que o mar não era o meu destino, mas nele fui forjada e transformada. E a cada amanhecer no mar, eu sentia que me aproximava ainda mais de Deus. Hoje, entre o mar e o cerrado, sigo servindo. E às vezes penso naquela menina simples que um dia saiu do Ceará carregando uma pequena mala, algumas mudas de roupa e sonhos maiores do que o mundo... Ela jamais poderia imaginar os oceanos que atravessaria, as tempestades que enfrentaria, as despedidas que suportaria, as portas que ajudaria a abrir ou as vidas que ajudaria a tocar. Mas talvez seja exatamente isso que Deus faz com algumas pessoas: conduzindo-as por mares difíceis para que, um dia, elas se tornem porto para outras. E se minha história puder inspirar outras mulheres, espero que seja não apenas pelas conquistas, mas principalmente pela verdade: O caminho existe. Mas ele exige coragem, fé, resistência e propósito. E talvez essa tenha sido a maior lição que o mar me deixou: algumas travessias não terminam quando chegamos ao porto. Elas continuam dentro de nós para sempre.

Vitória Régia Coelho Costa Comandante

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