Valdenora


“Minha história na Marinha Mercante começou muito antes do primeiro embarque. Ela começou no instante em que decidi ocupar um espaço que, até então, parecia não ter sido pensado para mulheres.
Ingressei no Centro de Instrução Almirante Braz de Aguiar em 1997. Minha formatura aconteceu em 2000, e concluí minha praticagem em 2001. Éramos pioneiras. E ser pioneira significa caminhar sem mapas, sem referências e sem saber exatamente quais tempestades encontraríamos pela frente.
Meu primeiro navio foi o Norsul Camocim. Ainda hoje consigo lembrar da sensação de entrar naquele ambiente tentando demonstrar segurança, enquanto por dentro existiam dúvidas, medos e uma enorme vontade de provar que eu era capaz.
No início da vida marítima, o maior desafio não era apenas o trabalho duro ou a rotina embarcada. O verdadeiro desafio era existir naquele espaço sem perder minha essência.
Não tínhamos representatividade. Não havia outras mulheres para observar e pensar: “eu posso ser como ela”. Muitas vezes precisei aprender sozinha. Tomei decisões importantes sem ter certeza absoluta de estar no caminho certo. Algumas escolhas deram muito certo. Outras me ensinaram lições profundas.
Em muitos momentos, fiquei em silêncio. Não porque não sentisse, mas porque precisava sobreviver emocionalmente naquele ambiente ainda tão resistente à presença feminina.
Talvez o meu maior desafio tenha sido transformar o ambiente de trabalho a bordo em um lugar saudável e respeitoso. Eu queria impor minha presença sem arrogância. Queria conquistar respeito sem precisar endurecer meu coração. Queria ser parceira da tripulação, mas deixando claros os meus limites. Queria ser querida, mas sem abrir mão da minha dignidade.
E, acima de tudo, eu queria mostrar que a presença feminina a bordo não era um problema — era uma contribuição valiosa para toda a vida marítima.
Sempre acreditei que mulheres trazem equilíbrio, sensibilidade, inteligência emocional e novas formas de liderança para dentro dos navios. Mas naquela época, tudo isso ainda era muito difícil de ser compreendido.
Houve lágrimas escondidas. Houve decepções. Houve comentários injustos e situações que marcaram profundamente minha trajetória. Mas também houve crescimento, amadurecimento, amizades verdadeiras e aprendizados que levarei para toda a vida.
Embarquei em navios como CBO Anita, CBO Itajaí e CBO Mistral, vivendo experiências que fortaleceram minha visão sobre liderança, convivência humana e profissionalismo.
Pessoas importantes marcaram minha caminhada, especialmente o Comandante Rafael Venâncio de Paula, uma grande referência profissional e humana para mim, e César Almeida, diretor de operações, que também teve papel importante na minha trajetória.
Hoje olho para tudo que vivi com orgulho.
Orgulho por não ter desistido.
Orgulho por ter resistido.
Orgulho por ter ajudado a abrir portas para tantas outras mulheres.
E quando penso no futuro da vida marítima, sou completamente otimista.
Acredito que estamos construindo uma nova cultura dentro da Marinha Mercante brasileira. Uma cultura mais humana, mais respeitosa e mais consciente da importância da diversidade a bordo.
E quero deixar uma mensagem não apenas para as futuras oficiais, mas para todas as profissionais marítimas — aquaviárias, enfermeiras, cozinheiras, taifeiras, eletricistas, oficiais, praticantes, engenheiras, técnicas e tantas outras mulheres que enfrentam diariamente os desafios do mar:
Nunca permitam que apaguem a força da presença feminina nos ambientes marítimos.
Vocês não precisam perder a delicadeza para serem fortes.
Não precisam endurecer a alma para conquistar respeito.
Não precisam desistir da sensibilidade para exercer liderança.
O mar exige coragem, disciplina e resistência. E nós temos tudo isso.
Cada mulher que embarca hoje carrega consigo a história de muitas que vieram antes. E cada passo dado com dignidade ajuda a transformar o futuro da navegação brasileira.
Que as próximas gerações encontrem um mar mais justo, mais humano e mais aberto para os sonhos femininos.
E que nunca esqueçam:
nossa presença a bordo não é exceção.
É evolução.”

























Lembranças
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