Luciene


Meu nome é Luciene Cunha Oliveira, e olhar para minha trajetória é lembrar de uma menina de 17 anos que decidiu enfrentar o desconhecido para viver o sonho de navegar. Estudei no antigo Colégio Cearense, onde concluí o ensino fundamental e médio, e em 1997 entrei para a EFOMM. Naquela época, ser mulher em um ambiente predominantemente masculino exigia muito mais do que dedicação aos estudos: exigia coragem diária.
Fui uma das únicas meninas durante todo o período de escola e me formei como segunda colocada geral no curso de Náutica. Cada prova, cada exercício e cada desafio eram também uma forma silenciosa de mostrar que nós, mulheres, tínhamos capacidade de ocupar aquele espaço com competência e dignidade.
Minha primeira experiência no mar aconteceu durante o antigo PIM, a bordo dos navios da Transpetro: NT Marta, NT Piraí e NT Rebouças. Lembro da emoção de pisar no convés pela primeira vez, sentir o cheiro do mar misturado ao óleo e perceber que minha vida nunca mais seria a mesma. Mais tarde, fiz minha praticagem na NORSUL, embarcando no MV Norsul Crateus, onde comecei, de fato, a construir minha identidade como oficial da Marinha Mercante.
Ao longo da minha carreira, tive experiências em diferentes segmentos da navegação. Naveguei em navios de contêineres pelas empresas Aliança Navegação e Log-In Logística Intermodal, trabalhei no offshore pela empresa norueguesa Deep Sea Supply, atualmente pertencente ao grupo Solstad Farstad, e também vivi uma experiência extremamente especial como instrutora do Centro de Simuladores de Navios do CIABA durante quase dez anos. Ensinar novos marítimos me fez compreender ainda mais a importância da troca de conhecimento e do exemplo.
Hoje sigo navegando como Imediato na NORCOAST, carregando comigo todas as histórias, desafios e aprendizados que o mar me deu.
Os desafios foram muitos. Desde os tempos de escola enfrentei resistência à presença feminina no meio marítimo. Em muitos momentos precisei provar mais, trabalhar mais e resistir mais para ser reconhecida da mesma forma. E talvez o maior desafio tenha sido equilibrar a vida pessoal, a maternidade e a profissão. O mar ensina sobre distância, saudade e renúncia. Mas também ensina sobre força, superação e amor pelo que fazemos.
Algumas pessoas marcaram profundamente minha caminhada, como os professores Vivekananda e Garcia, além dos comandantes Raul, Evandro e Bruno Lelis, meu marido, companheiro de vida e de profissão, que esteve ao meu lado em muitos momentos importantes da minha jornada.
Hoje tenho como grande referência profissional minha colega Hildelene Bahia, a primeira brasileira a se tornar CLC e a comandar um navio mercante no Brasil. Sua trajetória inspira não apenas a mim, mas muitas mulheres que seguem lutando diariamente pelo seu espaço no setor marítimo.
Ainda sonho com uma Marinha Mercante mais justa, onde mulheres possam ocupar cargos de comando e gestão sem precisar enfrentar tantas barreiras invisíveis. Infelizmente, ainda vejo mulheres extremamente competentes sendo deixadas de lado enquanto homens menos preparados assumem posições de liderança sem explicação justa. Mas acredito que estamos abrindo caminhos importantes e que as próximas gerações encontrarão um cenário diferente daquele que encontramos no passado.
Se eu pudesse deixar uma mensagem para as futuras marítimas, diria: nunca deixem que o medo ou a opinião dos outros definam os seus limites. O mar não escolhe homens ou mulheres — ele escolhe pessoas preparadas, resilientes e apaixonadas pelo que fazem. Cada mulher que embarca leva consigo a força de todas as que vieram antes e abre caminho para as que ainda virão.
Tenho orgulho da minha história. Orgulho das tempestades enfrentadas, das lágrimas escondidas, das vitórias conquistadas e, principalmente, da mulher que me tornei navegando por esse imenso oceano chamado vida.











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