Leomar


“Quando olho para o mar, não vejo apenas águas e horizontes. Vejo a história de uma geração de mulheres que teve coragem de entrar em lugares onde antes só existiam homens, silêncio e dúvidas sobre nossa capacidade.
Minha trajetória começou no Centro de Instrução Almirante Braz de Aguiar, onde dei os primeiros passos para construir uma vida profissional no mar. Ainda muito jovem, embarquei no Lambari, da Transpetro, meu primeiro navio, carregando comigo sonhos, inseguranças e uma vontade enorme de vencer.
Desde o início, a vida embarcada foi uma mistura intensa de desafio e liberdade.
Desafio porque éramos as primeiras mulheres ocupando aqueles espaços. Até então, os navios eram ambientes totalmente masculinos, e nossa presença mudava uma cultura inteira. Liberdade porque, mesmo diante das dificuldades, existia algo grandioso em atravessar mares sabendo que estávamos abrindo caminhos para outras mulheres.
Eu comecei muito nova. Tudo era novidade. Tudo parecia maior do que eu. Mas mesmo com pouca experiência e maturidade, nossa turma teve algo muito forte: posicionamento.
Nós entendíamos que não conquistaríamos nosso espaço apenas exigindo respeito. Precisávamos demonstrar competência, disciplina, foco e equilíbrio todos os dias. E foi exatamente isso que fizemos.
Claro que não foi fácil.
Houve momentos de desconforto, insegurança e necessidade constante de provar nossa capacidade. Mas fomos determinadas. Aos poucos, nossa postura profissional fez com que muitos passassem a nos enxergar não apenas como “mulheres a bordo”, mas como profissionais preparadas para estar ali.
Ao longo da minha trajetória, embarquei em navios como Lambari e Bagé, da Transpetro, Global Rio, da Global, Login Santos, da Log-In Logística Intermodal, e Bartolomeu Dias, da Aliança Navegação e Logística. Cada embarque trouxe aprendizados, amadurecimento e histórias que marcaram minha vida para sempre.
Mas minha maior força sempre esteve na minha base familiar.
Meu pai, José Pantoja de Moraes, e minha mãe, Leomar Martins de Moraes, foram minhas maiores referências de vida. Sou eternamente grata pela maneira como me criaram: com coragem, dignidade, força e determinação. Tudo o que me tornei como mulher e profissional nasceu dos ensinamentos deles.
E existe uma parte da minha história que talvez seja a mais desafiadora e ao mesmo tempo a mais bonita: ser mãe enquanto vivia a vida embarcada.
A distância nunca é simples.
Antes de cada embarque, era preciso organizar a vida, preparar o coração e garantir que minhas filhas estivessem bem mesmo na minha ausência. Minha mãe, minhas irmãs e meu esposo, Leonardo Brito da Silva, foram fundamentais nessa caminhada. Eles me ajudaram em cada detalhe, permitindo que eu continuasse perseguindo meus sonhos sem abandonar aquilo que mais amo: minha família.
Hoje tenho orgulho imenso das minhas três filhas.
Camile Victoria , Gabriella e Isabella são minhas maiores inspirações diárias. Cada uma delas carrega uma força que nasceu justamente dessa trajetória de desafios e superações.
E existe algo que emociona profundamente meu coração: minha filha Camile Victoria, aos 19 anos, está estudando para o concurso da Escola de Formação de Oficiais da Marinha Mercante. Ela deseja continuar o caminho que comecei no mar.
Isso significa mais do que uma escolha profissional.
Significa legado.
Significa que toda luta valeu a pena.
Hoje consigo enxergar uma evolução muito grande na vida marítima. Aos poucos, as mulheres conquistam mais espaço, mais respeito e mais reconhecimento. E acredito que isso acontece não pela imposição, mas pelos resultados das nossas atitudes, do nosso profissionalismo e da nossa dedicação a bordo.
Ainda existem desafios, mas também existe transformação.
E se eu pudesse deixar uma mensagem para todas as mulheres marítimas da Marinha Mercante brasileira, eu diria:
Nunca tenham medo de ocupar espaços que antes pareciam impossíveis.
Vocês são capazes de enfrentar tempestades sem perder a sensibilidade.
São capazes de liderar sem deixar de acolher.
São capazes de construir carreiras extraordinárias sem abandonar sua essência.
O mar ensina sobre coragem, mas também ensina sobre resistência. E nós, mulheres marítimas, aprendemos a navegar carregando sonhos, saudades, responsabilidades e amor dentro do peito.
Que as próximas gerações encontrem mares mais humanos, mais respeitosos e mais abertos para as mulheres.
E que nunca esqueçam:
cada mulher que embarca hoje carrega consigo a força de todas aquelas que tiveram coragem de ser pioneiras.”
Meu primeiro navio foi o Norsul Camocim. Ainda hoje consigo lembrar da sensação de entrar naquele ambiente tentando demonstrar segurança, enquanto por dentro existiam dúvidas, medos e uma enorme vontade de provar que eu era capaz.
No início da vida marítima, o maior desafio não era apenas o trabalho duro ou a rotina embarcada. O verdadeiro desafio era existir naquele espaço sem perder minha essência.
Não tínhamos representatividade. Não havia outras mulheres para observar e pensar: “eu posso ser como ela”. Muitas vezes precisei aprender sozinha. Tomei decisões importantes sem ter certeza absoluta de estar no caminho certo. Algumas escolhas deram muito certo. Outras me ensinaram lições profundas.
Em muitos momentos, fiquei em silêncio. Não porque não sentisse, mas porque precisava sobreviver emocionalmente naquele ambiente ainda tão resistente à presença feminina.
Talvez o meu maior desafio tenha sido transformar o ambiente de trabalho a bordo em um lugar saudável e respeitoso. Eu queria impor minha presença sem arrogância. Queria conquistar respeito sem precisar endurecer meu coração. Queria ser parceira da tripulação, mas deixando claros os meus limites. Queria ser querida, mas sem abrir mão da minha dignidade.
E, acima de tudo, eu queria mostrar que a presença feminina a bordo não era um problema — era uma contribuição valiosa para toda a vida marítima.
Sempre acreditei que mulheres trazem equilíbrio, sensibilidade, inteligência emocional e novas formas de liderança para dentro dos navios. Mas naquela época, tudo isso ainda era muito difícil de ser compreendido.
Houve lágrimas escondidas. Houve decepções. Houve comentários injustos e situações que marcaram profundamente minha trajetória. Mas também houve crescimento, amadurecimento, amizades verdadeiras e aprendizados que levarei para toda a vida.
Embarquei em navios como CBO Anita, CBO Itajaí e CBO Mistral, vivendo experiências que fortaleceram minha visão sobre liderança, convivência humana e profissionalismo.
Pessoas importantes marcaram minha caminhada, especialmente o Comandante Rafael Venâncio de Paula, uma grande referência profissional e humana para mim, e César Almeida, diretor de operações, que também teve papel importante na minha trajetória.
Hoje olho para tudo que vivi com orgulho.
Orgulho por não ter desistido.
Orgulho por ter resistido.
Orgulho por ter ajudado a abrir portas para tantas outras mulheres.
E quando penso no futuro da vida marítima, sou completamente otimista.
Acredito que estamos construindo uma nova cultura dentro da Marinha Mercante brasileira. Uma cultura mais humana, mais respeitosa e mais consciente da importância da diversidade a bordo.
E quero deixar uma mensagem não apenas para as futuras oficiais, mas para todas as profissionais marítimas — aquaviárias, enfermeiras, cozinheiras, taifeiras, eletricistas, oficiais, praticantes, engenheiras, técnicas e tantas outras mulheres que enfrentam diariamente os desafios do mar:
Nunca permitam que apaguem a força da presença feminina nos ambientes marítimos.
Vocês não precisam perder a delicadeza para serem fortes.
Não precisam endurecer a alma para conquistar respeito.
Não precisam desistir da sensibilidade para exercer liderança.
O mar exige coragem, disciplina e resistência. E nós temos tudo isso.
Cada mulher que embarca hoje carrega consigo a história de muitas que vieram antes. E cada passo dado com dignidade ajuda a transformar o futuro da navegação brasileira.
Que as próximas gerações encontrem um mar mais justo, mais humano e mais aberto para os sonhos femininos.
E que nunca esqueçam:
nossa presença a bordo não é exceção.
É evolução.”















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