Janaina Pinto
“Quando olho para trás, vejo muito mais do que navios, portos e embarques. Vejo uma menina que escolheu enfrentar o desconhecido em um tempo em que quase ninguém acreditava que mulheres poderiam ocupar aquele espaço.
Ingressei no Centro de Instrução Almirante Braz de Aguiar em 1997 e concluí minha formação em 2001. Éramos a primeira turma de mulheres e, junto com o sonho, carregávamos também o peso da responsabilidade de abrir caminhos para todas as que viriam depois de nós.
Meu primeiro embarque foi nos navios Lindoia BR e Diva. Eu ainda lembro da mistura de medo, ansiedade e coragem que senti ao subir a prancha pela primeira vez. O mar ensina rápido. Ensina sobre disciplina, resistência e, principalmente, sobre força interior.
Ao longo da minha trajetória, embarquei em navios gaseiros, petroleiros, bunker, offshore, plataformas, navios contêineres e graneleiros. Vivi experiências que me transformaram profundamente como profissional e como mulher.
Mas nem sempre foi fácil.
Os maiores desafios no início foram a desconfiança e o preconceito. Muitas vezes precisávamos provar nossa competência duas ou três vezes mais do que qualquer homem ao nosso redor. Existia a dúvida constante sobre nossa capacidade, simplesmente por sermos mulheres. E talvez isso tenha acontecido porque fomos as primeiras. Estávamos abrindo portas que ainda nem existiam.
Passei por navios como Lindoia, Diva, Guará, Guaporé e NT Serra Polar, cada um deixando marcas inesquecíveis na minha história. Em cada embarque, aprendi algo novo sobre liderança, coragem e humanidade.
Algumas pessoas foram fundamentais nessa caminhada. O Comandante Neto Saraiva, por quem tenho enorme carinho e admiração. O Comandante Franco, que me ensinou a confiar mais em mim mesma profissionalmente, sempre com generosidade e respeito. E o Comandante Geraldo, que foi muito além de um comandante — foi um verdadeiro pai e amigo dentro da vida embarcada.
Mas a minha maior referência sempre foi meu pai, José Francisco Verediano. Foi nele que encontrei os valores que me sustentaram nos momentos mais difíceis: dignidade, perseverança e honestidade.
Hoje, depois de tantos anos de mar, sinto orgulho de tudo que vivi. Não foi simples passar tanto tempo longe de casa, da família, dos momentos importantes da vida. Houve dias de solidão, de exaustão e de lágrimas silenciosas. Mas também houve conquistas que ninguém pode tirar de mim. Cada desafio vencido ajudou a construir a mulher e a profissional que me tornei.
E se eu pudesse deixar uma mensagem para as futuras oficiais da Marinha Mercante, eu diria:
Nunca deixem que ninguém diga que vocês não pertencem a esse lugar.
O mar não escolhe gênero. O mar escolhe coragem, preparo, caráter e competência. Honrem a luta das mulheres que vieram antes de vocês, mas também construam uma nova história — uma história com mais respeito, mais união e mais leveza.
Desejo profundamente que cada vez mais mulheres ocupem cargos de chefia, liderem navios, empresas e operações, mostrando que a força feminina pode transformar a cultura marítima sem perder a sensibilidade, a humanidade e a essência.
Nós abrimos caminho. Agora vocês podem navegar ainda mais longe.”
Lembranças













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