Ana Paula

Fui uma das primeiras mulheres a atuar como oficial no setor offshore. Quando assumi essa função, minha saúde não estava plenamente estável e, sinceramente, houve momentos em que duvidei da minha própria capacidade de seguir em frente. Ainda assim, permaneci. Adaptei-me às exigências de bordo, às condições adversas e às responsabilidades que o cargo exigia.

Um dos episódios mais marcantes da minha vida profissional foi, sem dúvida, quando descobri que estava grávida durante um período embarcada em um barco de manuseio de âncoras. Não houve planejamento. Descobri a gestação após passar mal a bordo, e um exame realizado em terra confirmou que eu já estava com cerca de nove semanas.

Naquele momento, começou uma fase extremamente delicada. Continuei embarcando, mesmo com sintomas, anemia severa e a necessidade de tratamento. Não havia, por parte da empresa, um preparo adequado para lidar com a situação. Também não existia, no setor, uma estrutura que acolhesse mulheres grávidas em atividade embarcada. Era como se aquela realidade simplesmente não tivesse sido considerada até então.

A bordo, vivi um misto de sentimentos. Havia preocupação com minha saúde e com a segurança do meu filho, insegurança quanto ao futuro profissional e, ao mesmo tempo, a necessidade de manter minha posição e demonstrar capacidade. Alguns colegas viam a situação como um risco; outros tratavam com leveza. Mas, no fundo, eu sabia que estava em um ambiente que não estava preparado para aquilo.

Quando a empresa percebeu a complexidade da situação, fui chamada para decidir entre continuar em terra ou ser desligada. Não foi uma escolha simples. O que eu mais queria era permanecer no quadro, continuar minha carreira. Acabei sendo afastada das atividades embarcadas já na fase mais avançada da gestação, permanecendo em casa até o nascimento do meu filho.

Esse período foi emocionalmente difícil. A gravidez, que deveria ser vivida com tranquilidade, veio acompanhada de incertezas, medo e ausência de suporte institucional. Hoje, com mais maturidade, compreendo o quanto essa falta de estrutura impacta não só a profissional, mas também a mulher e a mãe.

Após o nascimento do meu filho, retornei ao trabalho ainda com ele muito pequeno, pois, na época, a licença maternidade era limitada. Retomar a vida embarcada deixando um bebê em casa foi uma das experiências mais dolorosas que vivi. É uma realidade que muitas mulheres enfrentam em silêncio.

Minha trajetória me mostrou, com muita clareza, que o setor marítimo, naquele período, não estava preparado para a presença feminina em todas as suas dimensões — especialmente quando se tratava da maternidade.

Hoje, felizmente, há avanços. Atualmente, é proibido que mulheres marítimas embarquem grávidas, justamente como forma de proteger a saúde da mãe e do bebê — uma medida que reflete aprendizados importantes ao longo do tempo. Ainda assim, acredito que o setor precisa continuar evoluindo, não apenas em normas, mas em estrutura, acolhimento e respeito às especificidades da mulher.

Sigo acreditando na força da nossa profissão e no papel essencial da Marinha Mercante para o país. Mas também defendo que esse crescimento precisa caminhar junto com dignidade, segurança e igualdade de condições para todos — inclusive para nós, mulheres.

Lembranças

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