A minha história no mar começou em 1997, quando ingressei no CIABA. Eu fazia parte de um grupo de nove mulheres que, pela primeira vez, ocupavam um espaço que nunca havia sido pensado para nós. A escola não estava preparada.

Não havia estrutura, nem referências. Mas havia coragem — e isso nos moveu. Em 2000, me formei oficial de náutica. Mais do que um diploma, eu carregava a consciência de que cada conquista nossa abria caminho para outras mulheres. Como praticante, embarquei em navios petroleiros — fui uma das nove a viver essa experiência em um ambiente onde a presença feminina ainda não existia. Depois, como oficial, tornei-me também uma das nove a exercer essa função a bordo, rompendo mais uma barreira silenciosa. A técnica nunca foi o maior desafio. O verdadeiro teste estava no olhar constante, na cobrança invisível e, muitas vezes, na solidão de não ter com quem dividir os próprios sentimentos. Mas houve também desafios que ultrapassaram o ambiente profissional e tocaram o mais profundo do meu coração. A distância da família foi, sem dúvida, uma das partes mais difíceis da minha trajetória. Houve momentos em que precisei abrir mão de estar presente em fases únicas e irrepetíveis da vida do meu filho. Não pude acompanhá-lo durante cinco anos como gostaria. Não estive presente em seus primeiros passos, nem ao ouvir, pela primeira vez, ele me chamar de “mamãe”. Esse momento tão esperado chegou enquanto eu estava a bordo — através de uma videochamada. Foi ali, entre o dever e a saudade, que compreendi a dimensão dos sacrifícios que essa escolha exigia de mim. E, ainda assim, eu não estive sozinha. Tive o apoio de pessoas fundamentais, como você, Cris, e sua irmã — gestos que nunca esquecerei, especialmente em um dos momentos mais delicados, em Santos. Esse suporte foi essencial para que eu seguisse em frente. Mas a minha trajetória também foi marcada por pessoas que fizeram a diferença. O Comandante Menezes, na Transpetro, foi um desses pilares. Em um dos momentos mais delicados da minha carreira — quando enfrentei uma situação de assédio a bordo, sendo uma das primeiras a denunciar esse tipo de ocorrência —, encontrei nele não apenas um superior, mas um líder justo e humano. Sua postura firme, ao reconhecer o ocorrido e me acolher com respeito, foi decisiva para que eu seguisse em frente com dignidade e força. No mar, outros comandantes também deixaram marcas profundas na minha formação: o Comandante Marco Antonio Gonçalves, no Navio Rebouças; o Comandante Anchieta, no Navio Marta; o Comandante Raimundo Nonato Bentes e o IMT José Luís Batista Lima, no Navio Caravelas; o Comandante Humberto Soares Lopes Júnior, no Navio Lobato; e o Comandante Wellington Fontes, no Navio Londrina. Cada um, à sua maneira, contribuiu para que eu me tornasse a profissional que sou. Hoje, com a minha carreira consolidada, compreendo que aquela trajetória foi maior do que eu. Não se tratava apenas de permanecer — tratava-se de transformar. Fui uma das nove. E ajudei a abrir caminhos para que outras mulheres não apenas chegassem ao mar, mas fossem respeitadas, reconhecidas e, acima de tudo, pertencentes a esse espaço. À minha mãe, minha maior referência e inspiração. Foi na sua força silenciosa que encontrei coragem nos momentos mais difíceis e direção nos caminhos mais incertos. Tudo o que conquistei carrega um pouco de você. Se hoje eu sigo firme, é porque nunca caminhei sozinha.

Minha história foi construída com coragem, mas também com apoio, valores e exemplos que me sustentaram ao longo do caminho.

E é com esse mesmo espírito que sigo — acreditando que cada passo dado abre espaço para muitos outros que ainda virão.

Lembranças

Ana Claudia

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